Das coisas frágeis

Hoje à tarde minha bebê de sete meses engasgou com a própria saliva. Ela estava sentada sobre a minha cama quando começou a tossir. A princípio pensei que fosse mais um episódio de tosse comum até que, alguns segundos depois, percebi que ela não estava conseguindo respirar.

Agi conforme o protocolo em situações como esta: peguei-a imediatamente, coloquei-a sobre as minhas pernas com a barriga para baixo e a cabeça levemente inclinada e iniciei a manobra de desengasgo. Foram quatro tapas leves nas costas até a primeira checagem.

Ela continuava a se debater pela ausência do ar e, havia agora uma secreção que escorria pelo nariz. Aspirei o nariz rapidamente, retornei à manobra de desengasgo e desta vez, lentamente, ela foi recobrando o fôlego até voltar a respirar.

Tudo isso ocorreu em questões de segundos mas, para mim, pareceu que eu estava presa àquele momento por toda uma eternidade. Quando realizei que o pior já havia passado — ela já estava ativa e sorrindo novamente — encarei a minha figura pálida em frente ao imenso espelho que estampa a parede do meu quarto e fixei-me em encarar meus próprios olhos por alguns minutos.

O meu coração voltava a bater compassado ao mesmo tempo em que o sangue voltava a se aquecer por entre as minhas veias. Enquanto meu cérebro ordenava às minhas pernas que se mantivessem firmes, a figura pálida no espelho, descabelada, vestindo parcialmente um pijama de verão em pleno inverno europeu realizou que não estava preparada.

É, eu não estava preparada.

Não apenas por não estar vestida adequadamente caso precisasse ligar para a emergência e sair correndo por aí afora com a minha filha nos braços. Eu não estava preparada para reconhecer o quão frágil é a vida.

Todos nós sabemos de fato que a vida é breve. Já ouvi a vida ser definida como um sopro, como um piscar de olhos, como uma folha seca esperando o exato momento de cair e todas essas alusões são válidas para representar a brevidade da vida mas, a verdade é que poucos de nós está preparado para partir ou ver a quem amamos partir.

Ao longo de todo este percurso vamos tecendo relações, sonhando com situações possíveis, nos munindo de ideias, fatos, concepções. Acumulamos riquezas, bens e afetos e, por tantas vezes não nos damos conta que estamos imersos numa zona confortável, vivendo nossas vidas como se o amanhã estivesse sempre ali, à nossa disposição.

Ignoramos e por vezes esquecemos das coisas frágeis de que é feita a vida. Essa constatação abriu um buraco no chão onde eu pisava. Senti uma vontade imensa de chorar. Foi como se a vida, a tão estimada vida, perdesse o sentido para mim.

Por que amamos, nos afetuamos se a qualquer momento, tudo pode deixar de existir? Tantas perguntas e quase nenhuma resposta. Podemos procurar nos livros, nos filmes, nas pessoas mas nunca encontraremos uma maneira indolor de lidar com o fato de que somos frágeis e a quem amamos também.

E hoje, diante do maior medo que já senti na vida, o presente fez todo o sentido pra mim. Não há nada ali fora além do aqui, além do agora. E na tentativa em lidar com essa angústia eu me agarro ao momento presente, afinal é o único lugar onde podemos nos sentir seguros.


Crédito da foto: Suzanna West Makowski, sob licença CC0.

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