um livro, um filme, um disco: azul é a cor mais quente

Intertextualidade é a influência que um texto exerce sobre outro. Acontece com mais frequência na literatura mas pode existir em qualquer gênero. É um elemento riquíssimo que aproxima, conecta e permite que obras conversem entre si. Eu gosto muito desse diálogo e por isso vou aproveitar esse tema pra criar mais uma série aqui no blog pra falar de três coisas que eu adoro: literatura, cinema e música.

Em um livro, um filme, um disco, vou falar sobre como uma obra é criada a partir de outra ou simplesmente como um material faz referência à outro e nos leva a andar pelos mesmos caminhos. Um exemplo é a canção da cantora e compositora britânica Kate Bush, Whuthering Hights que foi feita a partir do livro homônimo escrito pela também britânica Charlotte Bronte. Ou, para citar algo mais contemporâneo e popular, o Na Natureza Selvagem, livro do Jon Krakauer que originou o longa dirigido pelo Sean Penn que consequentemente deu origem a trilha sonora criada pelo Eddie Vedder. Todas as três obras, magníficas, por sinal.

Pra começar a série eu quero falar sobre Azul É A Cor Mais Quente. Vi o filme na semana passada e gostei tanto que assim que terminei corri pra ler a graphic novel e fiquei dias ouvindo em looping a trilha sonora, que aliás está tocando agora enquanto escrevo esse post.

O meu objetivo não é fazer uma resenha das obras. Além de eu não ser crítica de nenhum dos gêneros, vou falar aqui de coisas que foram lançadas a bastante tempo e que portanto já estão resenhadas aos montes por aí. O que eu quero é falar sobre a minha relação com essas obras e talvez tentar entender, enquanto escrevo, o porque elas me impactaram tanto. Vamos lá?

O filme

Azul É A Cor Mais Quente (La vie d’Adèle) é um filme francês, dirigido pelo franco-tunisiano Abdellatif Kechiche que conta a história de amor entre Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Foi adaptado do romance gráfico da escritora e ilustradora francesa Julie Maroh. Ambas as obras fizeram muito sucesso de crítica e publico e causaram um certo rebuliço na época dos lançamentos (o livro é de 2010 e o filme de 2013) por causa temática homossexual e, no caso do filme, por conter cenas de sexo muito gráficas. É claro que não tem como passar despercebido por uma cena de sexo explícito que ocupa a tela por mais de seis minutos mas o filme é muito mais do que isso: é lindo, envolvente, triste e fala sobre uma linda história de amor contemporânea.

Adèle tem 15 anos quando a conhecemos e a maneira que o diretor conduz a narrativa permite que a gente se aproxime e crie uma intimidade grande com a personagem. A câmera mostra como ela vive, no que é tipicamente o dia a dia de uma garota comum que vai à escola, faz as refeições com os pais, sai com os amigos mas, a câmera também mostra pra gente o que ela está vendo e como ela está vendo e eu acho isso delicioso. Tem muitos closes, que chegam às vezes até causar um certo desconforto em quem está assistindo. A gente vê ela bem de perto, respirando, transpirando, observando tudo. O cabelo sempre meio bagunçando parece refletir o momento que ela tá vivendo, não exatamente confortável.

Esse jeito de filmar do diretor me deixou completamente apaixonada. O filme tem 3 horas e pra mim é por isso que ele funciona, porque a gente tem tempo pra degustar com calma essa garota.

A cena em que ela vê a Emma pela primeira vez, ao atravessar a rua, acontece aos 13 minutos do filme. Já a cena onde elas se reencontram e finalmente se conhecem acontece só 44 minutos. Nesse intervalo de tempo a gente vê o quanto a Adèle ficou bagunçada e confusa desde que cruzou com a Emma na rua então quando elas vão finalmente se conhecer já tem uma expectativa grande ali.

Blue Is The Warmest Color

A gente sabe que a aquele encontro vai mudar a vida delas e a cena onde isso acontece é uma coisa linda. A Adèle sai numa noite com um amigo. Eles vão para um bar gay. Ela fica ali um pouco perdida, o amigo se emaranha com alguém, até que ela saí e segue um grupo de garotas que entram em outro bar nas redondezas mas, dessa vez, é um bar de mulheres. Adèle entra, circula um pouco, a música alta tomando conta do ambiente. Curiosa, observa tudo: as luzes, cores, casais se beijando. Em certo momento ela vira, fica de frente pra câmera (que se comporta como um simples observador), a imagem dela sendo as vezes ofuscada por pessoas passando na frente (é como se a gente estivesse ali no bar, vendo tudo em tempo real), uma porta se abre nas costas delas e Emma entra em cena, os cabelos azuis surgindo por cima dos ombros da Adèle. ❤

Blue Is The Warmest

E na sequência a Adèle vai até o balcão, pede uma bebida, dá mais um giro pelo bar com os olhos até que, cruza o olhar com a Emma que já a estava observando. Os olhos arregalados de surpresa, o engolir seco, a transpiração, a música ao fundo falando sobre uma garota que vive para o hoje, Emma se aproximando e inciando a conversa. É de tirar o fôlego.

Blue Is The Warmest

O filme segue explorando não só as decobertas amorosas entre as meninas mas também o amadurecimento delas enquanto pessoas, enquanto parceiras de vida, a transição da Adèle pra vida adulta, o contraste social e cultural dos mundos em que elas pertencem.

Duas sequências no filme exploram isso muito bem. Cada uma vai jantar com a família da outra. Na casa da Emma, Adèle experimenta frutos do mar e é apresentada oficialmente como namorada para a mãe e o padrasto. A homossexualidade de Emma é bem aceita pela família. Já na casa da Adèle, elas comem macarronada a namorada é apresentada aos pais como uma amiga que a ajuda com as aulas de filosofia.

Mas o filme, ao contrário da HQ, não é sobre o relacionamento das duas. O filme é sobre a Adèle e, em determinado momento elas rompem e o filme segue mostrando isoladamente o que acontece com a protagonista. O sofrimento e a dor dela pra seguir em frente e se manter em pé quando na verdade ela está destruída por dentro. A saudade que sente da Emma, que ao contrário dela supera bem o término. É um trabalho muito corajoso, muito bem escrito, as duas atrizes estão espectaculares no papel, a estética com o jogo de cores entre o azul e o laranja (cores complementares) e ausência de um desfecho final, onde o filme simplesmente deixa de existir. É uma das coisas mais lindas que já vi no cinema.

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O livro

Como eu já comentei no início do post, o filme foi inspirado numa história em quadrinhos. Logo que terminei longa corri atrás pra ler o livro e pela primeira vez na vida eu gostei mais do filme.

O livro segue por outro caminho e tem um tom um pouco mais pesado, ao meu ver. A história começa com Clémentine (no filme o nome foi trocado) morta e Emma chegando na casa dos pais dela para ter acesso aos diários que ela escreveu em vida. A partir daí, vamos conhecer por flashbacks a história de amor entre elas. O foco é sobre o encontro delas e em como esse encontro mudou definitivamente a vida de ambas. Aborda com mais precisão os preconceitos que elas sofreram, (especialmente pelos pais da Clém), a evolução do relacionamento, as dúvidas, o rompimento e a depressão e dependência de remédios que debilita fatalmente a Clémentine. É um trabalho lindo e bem escrito e eu também gostei muito do traço da Julie Maroh mas, como já disse, o filme me tocou mais. Talvez por ter um final menos trágico. O filme é triste também mas é mais leve que o livro.

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Uma coisa que eu gostei é que as cenas do encontro e reencontro das personagens acontece no filme de forma bem parecida com o quadrinho.

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A trilha sonora

Pra completar a tríade do meu post, devo finalizar falando sobre a trilha sonora do filme que foi uma surpresa boa pra mim. Não conhecia absolutamente nenhuma das músicas e fiquei me deliciando com as escolhas acertadíssimas. Tem I follow Rivers, que embalada a dança da Adele no seu aniversário de 18 anos, a francesa On Lâche Rien que aparece durante a cena das manifestações e as minhas favoritas Helcyon Daze, Live For Today e Feel It Now que dão o ar da graça naquela cena linda do bar que eu descrevi ali em cima onde a Adele e a Emma se conhecem. É jovem, sexy e irresistível assim como esse filme. Pra ouvir aperta o play!

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